sábado, 8 de dezembro de 2012

Agenda



Agenda

Se em vida me fazem pouco,
morto quanto valerei?
Quanto valerá o rouco
verso dirigido ao rei?

Quantos lembrarão meu rosto
 e as roupas que escolhi
para os bailes onde apenas
ou nem mesmo eu me vi?

Se em vida me fazem pouco,
morto quanto valerei?
Quantos loucos debruçados
Sobre os versos que farei
Lembrarão os meus prazeres
E os seres a quem amei?
Quantos lembrarão meu nome
quando na mesa de um bar
ou quando as cordas trouxerem
o que eu gostei de cantar?
Ao menos fazendo choça,
quantos lembrarão de mim
ou da fossa que eu curtia
ao toque do bandolim?

Meus pais, irmãos e amigos
e parentes em geral
farão aos meus inimigos
ao menos guerra mental?
As namoradas que tive
lembrarão os beijos meus,
guardando entre seus pertences
Os meus escritos plebeus?

Quem guardará minha agenda
de compromissos perdidos
e endereços errados
e telefones vencidos?
Quem lembrará minhas datas,
Se em vida sou esquecido?

Quem colocará à venda
os livros que imaginei;
quem seguirá minha senda
mesmo tachado de louco?
Morto, quanto valerei
Se em vida me fazem pouco?

Otacílio Monteiro
Poematéria (1988)

2 comentários:

  1. Menino, gostei da forma que escreves... A sensibilidade aflora de um jeito perfeito e nos transmite o que muitas vezes nos oculta a alma. Belos versos, grandes verdades traduzidas de forma suave e que ainda nos possibilita entrever nas entrelinhas sonhos e encantos de uma existência.
    Parabéns... Amei!!!

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